Dar de comer ao teu cão ou gato parece simples. É ração, água, talvez um petisco ao fim do dia. Mas há uma série de erros muito comuns que passam despercebidos e que, com o tempo, podem ter consequências sérias para a saúde do animal. Alguns são pequenos hábitos do dia a dia, outros envolvem alimentos que toda a gente tem em casa e que ninguém imagina que possam fazer mal. Este artigo reúne os mais frequentes, não para assustar, mas para tomares decisões mais informadas.

Dar "um bocadinho" do que estás a comer

É quase um reflexo: o cão fica ao lado do sofá com aquele olhar, e a resistência vai diminuindo. Mas partilhar a comida da mesa é um dos erros mais comuns e que mais consequências pode ter, porque muito do que faz parte da nossa dieta é, no mínimo, inadequado para cães e gatos e em alguns casos, francamente perigoso.

O chocolate é o exemplo mais conhecido: contém teobromina, uma substância que os cães e gatos não conseguem metabolizar, podendo provocar vómitos, convulsões e problemas cardíacos. Quanto mais escuro o chocolate, maior a concentração e o risco. Mas há outros que surpreendem mais: a cebola e o alho, por exemplo, destroem os glóbulos vermelhos do sangue e podem causar anemia, e isto vale tanto para versões cruas como cozinhadas. As uvas e as passas são igualmente problemáticas: mesmo em pequenas quantidades, podem causar insuficiência renal aguda.

Outros alimentos a evitar com regularidade: o xilitol (adoçante artificial presente em pastilhas elásticas, doces "light" e alguns produtos de pastelaria), o abacate (que contém persina, tóxica para cães e gatos), as bebidas com cafeína e o álcool, mesmo em doses residuais. Os ossos cozidos, ao contrário do que muita gente pensa, também são perigosos: ao cozinhar, o osso perde a sua estrutura natural e parte-se em estilhaços que podem perfurar o trato digestivo.

A regra prática é simples: se tiveres dúvidas sobre se um alimento é seguro, não o ofereças. Em caso de ingestão acidental de qualquer substância potencialmente tóxica, consulta sempre o teu médico veterinário.

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Ignorar o rótulo da ração

Há rações e rações. O preço, a embalagem ou o facto de um vizinho usar aquela marca não são critérios suficientes para escolher o alimento principal do teu animal. Ler o rótulo é um passo que muitos tutores saltam, mas é precisamente aí que estão as informações mais relevantes.

A lista de ingredientes está ordenada por peso decrescente: o primeiro ingrediente é o que existe em maior quantidade. Numa boa ração para cão ou gato, a proteína animal (frango, salmão, peru, etc.) deve liderar essa lista. Se os primeiros ingredientes forem cereais ou derivados, ou se aparecerem termos vagos como "subprodutos de origem animal" sem especificação, vale a pena comparar com outras opções.

Perceber como ler o rótulo da ração do cão e do gato faz uma diferença real na qualidade da alimentação a longo prazo, e é uma competência que qualquer tutor consciente deveria ter.

Dar sempre a mesma quantidade, independentemente da fase de vida

Um cachorro de quatro meses, um cão adulto ativo e um cão sénior com mobilidade reduzida têm necessidades nutricionais completamente diferentes. O mesmo se aplica aos gatos. Manter a ração e a mesma quantidade ao longo de toda a vida do animal é um erro silencioso que vai acumulando consequências: excesso de peso, carências nutricionais, problemas articulares ou renais.

Os animais seniores têm, por exemplo, necessidades proteicas distintas e uma tendência maior para doenças metabólicas. As rações específicas para cada fase de vida existem precisamente por isso. A quantidade indicada na embalagem é um ponto de partida, mas o ideal é ajustar com base no peso real, no nível de atividade e na condição corporal do animal.

Subestimar a importância da água

A hidratação é frequentemente esquecida quando se fala em alimentação, mas está diretamente ligada à saúde renal, digestiva e ao bem-estar geral do animal. A água do bebedouro deve estar sempre disponível, limpa e fresca e trocada pelo menos uma vez por dia.

Os gatos são particularmente vulneráveis à desidratação, em parte porque têm um instinto de sede menos desenvolvido do que os cães e porque evoluíram em ambientes áridos onde parte da sua hidratação vinha através da alimentação. Um gato que come ração seca exclusivamente e não bebe água suficiente está em risco de desenvolver problemas renais e do trato urinário ao longo do tempo. Introduzir ração húmida parcialmente ou oferecer uma fonte de água corrente são estratégias que muitos veterinários recomendam.

Para perceber melhor o impacto deste tema, vale a pena ler sobre a importância da hidratação em cães e gatos e o que podes fazer para garantir que o teu animal bebe o suficiente.

Fazer uma alimentação natural sem acompanhamento

A dieta natural (BARF, cozinhada ou mista) tem vindo a ganhar mais adeptos nos últimos anos, e há de facto argumentos válidos a favor de uma alimentação mais próxima do que seria a dieta ancestral do animal. O problema é quando é feita sem critério.

Uma dieta caseira desequilibrada pode causar carências graves de vitaminas e minerais que não se manifestam de imediato, mas que se acumulam durante meses ou anos. Cálcio e fósforo em proporções erradas, por exemplo, podem afetar seriamente o desenvolvimento ósseo em cachorros. A ausência de determinadas vitaminas pode comprometer o sistema imunitário ou causar problemas de pele e pelo.

Se queres saber mais sobre o tema antes de decidir, o artigo sobre alimentação natural para cães e gatos aborda os prós, os contras e o que deves ter em conta. A conclusão é sempre a mesma: qualquer mudança significativa na dieta do animal deve ser feita com orientação veterinária ou de um profissional de nutrição animal.

Usar petiscos sem controlo

Os petiscos são uma ferramenta fantástica no treino e na relação com o animal. O problema é quando passam a ser usados em excesso, sem critério, ou quando são substituídos por sobras de comida humana. Bolachas, enchidos, queijo ou pão, são opções que muitos tutores usam como recompensa por hábito, sem perceber o impacto calórico e nutricional que representam.

Em termos práticos, os petiscos não devem ultrapassar 10% das calorias diárias do animal. E quando se fala em petiscos industriais, o mesmo raciocínio que se aplica à ração vale aqui: ler os ingredientes importa. Muitos contêm sal, açúcar ou conservantes em quantidades que não são adequadas para consumo frequente.

Não adaptar a alimentação a problemas de saúde

Um cão com excesso de peso, uma gata com problemas renais ou um cão idoso com artrite têm necessidades nutricionais específicas que uma ração standard não consegue suprir. A alimentação é, muitas vezes, parte central do tratamento ou da gestão de condições crónicas e ignorar isso é um erro com consequências reais.

As doenças comuns em cães e gatos têm muitas vezes um componente alimentar associado, seja na prevenção, seja na gestão. Há rações terapêuticas formuladas especificamente para diferentes condições, e a decisão sobre qual usar deve ser sempre partilhada com o veterinário.

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No fundo, a maioria destes erros tem a mesma origem: a ideia de que alimentar um animal é um gesto automático, sem grande margem para erro. Não é. A nutrição é uma das áreas em que pequenas decisões diárias têm mais impacto na saúde a longo prazo e os animais não têm como dizer quando algo não está bem.

Não é preciso tornar-se especialista em nutrição para ser um bom tutor. Mas se esta área te desperta interesse genuíno, o Curso de Técnico de Nutrição Animal da Nubika dá-te as ferramentas para compreender a fundo as necessidades nutricionais das diferentes espécies e para trabalhar nessa área de forma profissional.

Para o dia a dia, o essencial é estar informado, ler os rótulos, respeitar as fases de vida do animal e não hesitar em falar com o veterinário quando há dúvidas. O teu cão ou gato agradece à sua maneira.